Como hippies no parque.

junho 22, 2010

A idéia era fazer um som no gramado do parque. Todo mundo, num domingo ensolarado, sentado no gramado com violões e cigarros parecendo hippies.
A sensação era sempre a mesma, como se eu me deparasse com algo novo a todo momento, o que não era mentira, mas era só uma sensação que eu só consigo perceber agora.
Sair com os amigos dela, que começavam ali a ser meus amigos também, tinha um clima muito rock n’ roll. Mais até do que a que tinha com os meus próprios amigos. Eles eram mais velhos e usavam algumas coisas que só um dos meus amigos mais próximos já tinha experimentado.
Ela nunca gostou disso e até brigava com os outros quando eles levavam maconha, por exemplo.
A garota branquela de franja tirou os cigarros da bolsa e distribuiu e eu peguei um também.
Eu já tinha fumado algumas vezes depois de roubar cigarros do meu pai no meio da madrugada.
Um amigo do irmão dela me entregou o violão e me pediu pra tocar alguma coisa. Toquei umas musicas de “hippies no parque” e foi fácil animar pessoas já um tanto bêbadas de vodka quente com coca cola.
Ela acendeu um cigarro e dividiu as tragadas comigo enquanto a gente conversava com todo mundo.
O irmão dela era um cara alto, de cabelos castanhos como os dela, fazia academia todos os dias e pouco dormia em casa. Era do tipo falsa geração saúde, sabe? “Cuido do meu corpo, mas maltrato meu pulmão e meu fígado por prazer.”
Ele tinha levado a nova namorada dele pro fundo do parque e lá eles tinham ficaram por meia hora ou um pouco mais.

– Vocês parecem um bando de hippies sentados assim aí! – Ele disse.
– Você quer ir pra casa hoje? – A garota disse.
– Vou sim. Aliás, vamos todo mundo agora? – Disse, fazendo um gesto para que nós o acompanhássemos.

Concordamos, levantamos e fomos.
No caminho nós conversamos sério e eu recebi alguns conselhos: Nada de piadas com palavrões e nada de palavrões soltos nas frases. Não falar alto, nem gaguejar quando falarem alto. Não falar nada sobre futebol ou sobre sexo. E, em hipótese alguma, contar sobre nós.

– Pra quem eu contaria? – Perguntei.
– Só finge que você é educado, ok? – e riu.

E, como sempre, ela não respondeu o que eu perguntei e continuamos andando.
Eu lembrava bem onde ela morava e ainda sabia o caminho, mas mesmo assim fomos atrás de todo mundo. Era uma rua grande e não era reta. O prédio ficava no meio da curva e ficava bem perto do parque e, por acaso, da escola onde eu estudava.
Passamos pelo portão e pelo mesmo porteiro de um tempo atrás quando a gente esteve ali trazendo um pacote bêbado a ser despejado dentro do apartamento. Já parecia fazer muito tempo, parecia que tinha sido há séculos, que tinha sido outra pessoa que tinha ido até lá um dia.
Entramos no elevador. 10 pessoas dentro de um elevador, algumas cheirando forte a cigarro e outras substâncias quaisquer.
Enquanto o elevador lentamente ia subindo de andar em andar, as borboletas voavam no meu estômago e faziam tal festa lá dentro que eu comecei a quase me sentir mau. Toda aquela ansiedade não tinha justificativa, era só eu me manter invisível durante todo o tempo que ficássemos lá, mas quem disse que eu conseguia ficar invisível?
Saímos do elevador e eu coloquei o pé pra fora quase como quem vai pra forca. Olhei o corredor com paredes brancas e um vaso no canto, embaixo da janela. Algumas portas, que eu não consegui saber exatamente quantas eram e uma delas com o numero 23 colado.
Uma mulher abriu a porta por dentro e apareceu na porta com um sorriso no rosto. Ela não era tão alta, mas era magra e tinha cabelos castanhos e lisos. Uma postura calma e um abraço igualmente sereno.
Perguntou meu nome quando eu entrei e eu perguntei de volta e descobri que essa era a mãe dela.
Claro, eu não conseguiria ficar invisível e comentei na frente dela:

– Nossa, sua irmã é tão bonita quanto você.
– Como você é ridículo. – E riu – Não é minha irmã, é minha mãe.
– Não fala assim com o garoto. Ele é muito gentil. Obrigado.
– E muito engraçadinho também! – O irmão dela gritou.

A sala, à direita da porta, tinha uma televisão grande sobre um hack grande com bebidas, alguns livros e CDs. Na parece tinha grudado um quadro com o time do pai dela, aquele rival do meu. O sofá em frente era branco e tinha algumas almofadas brancas sobre ele.
Logo atrás do sofá, depois da janela, ficava a mesa de jantar. Era redonda, de vidro, pequena e tinha 6 cadeiras em volta. Tinham alguns livros e uma xícara de café ali em cima.
Além da mesa eu vi a porta para a cozinha e do outro lado um corredor que levava pros quartos.
Me mandaram sentar e ela logo se sentou do meu lado. Segurou minha mão e eu senti que ela estava fria.
Perguntei se ela estava bem, ela olhou pra mim e fez que sim com a cabeça. Não acreditei, mas continuei segurando a mão dela e ela, ainda segurando minha mão, me fez ajoelhar em frente ao hack e ver alguns CDs que ela tinha comprado recentemente. Algumas bandas que estavam na moda, a trilha sonora de Dirty Dancin’ e uma coletânea de jazz. Eu disse, claro, que só o disco de jazz tinha valido o dinheiro gasto e ela voltou pro sofá. Fiquei ali olhando pra ela e levantei. Passei por ela e toquei seu queixo com a ponta dos dedos. Fui até a mesa onde todos estavam conversando. Então, de repente, e não poderia ter sido mais assustador, ouvi uma voz grossa vinda do corredor dos quartos. Essa voz foi aumentando e irrompeu pela sala seguida pelo corpo grande de um homem com barbas grisalhas e poucos cabelos.
Era o pai dela e eu percebi a hora que ela se virou pra ver a minha reação e a curiosidade tinha lá seus motivos. Talvez ela tenha percebido que pela primeira eu quis ser invisível, MS não adiantou. Ele olhou no rosto de todos, que continuavam conversando, e apontou pra mim e pra uma garota:

– Eu não conheço vocês dois.

Percebi que a garota tinha ficado vermelha de vergonha e tomei a frente:

– Pois é, a gente é relativamente novo na “gangue” – E fiz um gesto de aspas com os dedos.
– Bom saber. Mas qual é exatamente o objetivo de vocês na “gangue”? – e repetiu meu gesto
– Bom, a gente não sabe direito. A gente ainda é meio estagiário deles ainda, não é? – e dei uma trombada na garota.

E o grande urso calvo e grisalho se desmontou e riu junto com todo mundo.
E ela continuava sentada em frente da TV e eu esperei sair de foco na conversa pra sentar do lado dela. Sentei e, quase que instantaneamente, ela deitou a cabeça no meu ombro.

– Tem certeza que ta bem? Pode ser peste bubônica ou coisa parecida, cuidado.
– Não é nada, só vontade e ficar quieta assim. – E se ajeitou no meu ombro.

Estiquei o braço até a mesinha de telefone, peguei uma caneta vermelha e o caderno de anotações. Escrevi: “Você está fica tão linda mesmo assim com peste bubônica, sabia?”. Arranquei o papel do caderno e dobrei antes de colocar na mão dela.
Ela desdobrou, leu e sorriu. Era o que eu precisava. Anunciei que estava tarde e que eu precisava ir embora.
Me despedi de todos e ela me levou até a portaria.

– Você se saiu bem, parabéns.
– Imagina, são seus olhos verdes vendo as coisas distorcidas. Eu quase me borrei lá dentro quando seu pai entrou falando alto.
– Ele não é nada. Quero ver a hora que você conhecer meu irmão.
– Eu já conheço seu irmão há tempos, sabia? Ta chapada?
– Não, tonto. Meu irmão mais novo. Ele tem 3 anos e ta na casa da minha avó hoje e é o demoniozinho mais lindo do mundo. Você vai gostar dele.
– Mal posso esperar. Mas criança só é bom quando não solta fluidos corporais o tempo todo. Ele não é daqueles catarrentos, né?
– Claro que não! Ele é lindo.
– Então é muita sorte a minha dele ser seu irmão, senão eu não ia ter a menor chance.
– Ah, não ia mesmo. – E me beijou.

***

Cheguei em casa e dormi no sofá mesmo sem nem tirar a calça jeans.
Dormi a noite toda.

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É quase verão.

maio 12, 2010

Era quase verão e as aulas estavam no fim e era mais um ano que acabava para que o outro pudesse começar, assim, sem novidades. Sabe quando você para pra pensar num fim de ano e não lembra qual foi? Então, aquele fim de ano não foi um desses.
No meio de novembro minha cabeça já estava livre de pensamentos escolares porque eu já tinha passado de ano numa boa, só que por outro lado eu estava mais seguro de mim do que nunca estivera antes.
Nós nos víamos todos os dias depois da escola, nos encontrávamos em outro shopping e isso era o suficiente pra uma vida. Naquele momento eu sentia como se pudesse viver daquele jeito pra sempre.
Claro, na minha cabeça adolescente aquilo era o paraíso perdido e a gente viveria de saliva e cartas de amor escritas à mão pelo resto da vida. Bobagem.
Era uma bobagem que nos fazia bem mesmo a gente sabendo que era uma bobagem, sabe?
E era assim todos os dias, depois da escola, a gente se encontrava em frente ao shopping só pra ficar ali, os dois parados, olhando o mundo passar e dar risada dele.

***

Era quase verão e eu estava excitado com a primeira aventura a dois da minha vida. As aulas acabando e o fim do ano chegando enchiam meus olhos de esperança sempre que eu me olhava no espelho. O mundo finalmente valia a pena e minhas críticas quanto a ele estavam caindo por terra.
Mau gosto musical não era mais um problema, filmes ruins, livros infantis ou programas babacas de humor também não.
Eu me peguei cantando alto no chuveiro. “No Matter What” do Badfinger sempre me faz pular.
Eu cantava como se fosse num super show. As pessoas gritavam e esticavam as mãos para que eu pudesse tocá-las.
Fui pegar minha escova de dentes e vi o espelho coberto de vapor. Escrevi um nome com meu dedo indicador no vapor no espelho.
A musica parou.
O público parou de gritar e eu só via o nome no espelho.
Eu dei um sorriso e voltei a cantar no meu microfone de shampoo.
Era pra ser assim mesmo?

Ensaios

abril 1, 2010

Durante todo aquele mês, que a gente quase não se viu, eu percebi o quanto aquela sexta a noite no cinema tinha virado meu mundo de cabeça pra baixo.
E quando eu digo “virou meu mundo de cabeça pra baixo” eu digo com toda a serenidade do mundo.
Minhas notas melhoraram, meus dias ficaram mais curtos, e isso era bom, eles ficaram mais curtos por que minha insônia diminuiu muito e pra mim sempre foi uma vitória conseguir dormir uma noite inteira.
Se, por um lado, não te ver durante aquele tempo foi torturante, isso só me fortaleceu.
Eu pensava em você o tempo todo e às vezes sentia o cheiro do seu perfume doce e seco antes de dormir.
Falando nisso, eu estava tentando lembrar o nome desse seu perfume um tempo atrás e cheguei à conclusão de que não lembraria, então fiz questão de me esquecer do assunto.
Novembro era sempre mês de revisão de matérias e este começou com muitos deveres e trabalhos pra nós dois, mesmo que nós estudássemos em escolas completamente diferentes.
Enquanto eu escrevia à mão meus resumos de história, você entregava por email, como se fossem suas, as teses do que algum nerd da turma do seu irmão tinha feito pra ele dois anos atrás.
Aliás, foi nessa primeira semana de novembro que eu a idéia da minha banda voltou à minha cabeça.
Eu já tinha escrito muito durante o tempo que eu deixei essa idéia de lado e isso me excitava agora que as idéias caiam do céu.
Conversei com um carinha de outra sala sobre isso. Ele era um garoto um pouco acima do peso, tinha cabelos rebeldes e encaracolados e também levava o violão pra escola de vez em quando. Ele aceitou a idéia logo de primeira, mas nós concordamos que precisaríamos de um baterista antes de tudo.
Mesmo com esse empecilho nós começamos a trocar letras e arranjos de musicas que tínhamos e percebemos que as musicas iam se completando aos poucos.
Nós nos juntamos algumas vezes durante aquele mês pra ver se algumas daquelas musicas saiam do papel, mas não tivemos muito sucesso.
Eu não era inexperiente quanto a bandas de rock, tanto que já tinha passado por duas delas (que claro, acabaram sem deixar vestígios depois de pouco tempo), mas as musicas não saiam do jeito que a gente queria.
A gente passava tardes tentando fazer as musicas terem a nossa cara, mas elas sempre ficavam iguais as musicas do álbum “Appetite for Destruction” do Guns n’ Roses.
Pensando bem, foi bom a gente ter percebido isso logo de cara e ter trocado as guitarras por violões nos “ensaios”.
“Ensaios” entre aspas porque a gente ainda não tinha musica nenhuma, então não era bem um ensaio e a gente acabava não fazendo nada durante horas, e isso é bem o que hoje chamaríamos de “ócio criativo nem tão criativo assim”, só que acima de tudo isso o sentimento de “vamos ficar ricos com isso” estava firme nas nossas cabeças e nos fazia continuar a não fazer nada.

***

O dia estava quente e algumas nuvens começavam a se formar negras no céu na hora em que eu saí de casa no sábado a tarde.
Começou a chover durante o trajeto e eu me preocupei com a minha roupa que com certeza ficaria completamente molhada.
Nos encontramos na frente do parque debaixo de uma chuva muito forte e quente e a gente decidiu esperar ela passar pra entrar no parque mas ela não passou e a gente decidiu entrar do mesmo jeito.
Foi o nosso melhor encontro até então. Em baixo de chuva, completamente molhados e entregues às nossas próprias risadas inocentes.
Ali a gente percebeu que aquilo iria durar pra sempre, que iria marcar fundo na pele. Foi isso ou eu passei esse tempo todo enganado? Você sentiu também, tenho certeza.
Era a primavera acabando e dando lugar ao verão.

À luz de telas.

fevereiro 10, 2010

Sabe, eu me peguei rindo sozinho agora em frente à TV.
Assistir TV de madrugada pode ser muito engraçado. Por exemplo, agora é um filme que você iria adorar: sobre um monge chinês que vai atrás de um pêssego que lhe dá juventude eterna.
Bom, o primeiro filme que nós assistimos juntos foi muito bom. Admito, eu assisti depois com uns amigos pra poder entender o contexto.
Eu fiquei te esperando mais de meia hora na fonte em frente das salas de cinema. Aquelas fontes com azulejo azul, com água bem fraquinha saindo pelos cantos.
Te vi chegando mas não quis que você me visse e fiquei te olhando de longe por uns 5 minutos. Impaciente, você andava de um lado pra outro olhando em volta. Os cabelos soltos sobre a jaqueta preta, a calça sobre o salto alto.
Suas amigas chegaram e isso quis dizer que eu perdi a chance de fazer uma surpresa. Um cara se aproximou e eu apertei minha mão dentro do bolso. Ele te pegou pela cintura pra te dizer oi e te beijou no rosto. Você se manteve estática olhando para o nada como você sempre fez. Eu me movi e fui até você e por trás cobri seus olhos com as minhas mãos.

– Adivinha quem é?
– Eu vou me surpreender se eu errar?
– Depende, se você estiver esperando que seja o Johnny Depp só de cueca vai se decepcionar.
– Não vou não, me contento só com você mesmo.

Você se virou, me olhou nos olhos, sorriu e segurou a minha mão.
Sua amiga, uma garota extremamente branca com os cabelos extremamente pretos sugeriu um dos filmes em cartaz fazendo com que o resto das pessoas ali se rebelasse contra a decisão mas isso não valeu de nada por que a gente queria ver aquele filme então estava decidido.
Só tinha um problema, tinha um garoto ali que não tinha mais que 12 anos e a classificação etária do filme era de 16 anos.
Eu disse:
– Tenho uma idéia: “Você – e apontei pra sua amiga branquela – fica parada com ele – e apontei pro seu irmão – bem ali na frente da entrada e fingem conversar, daí ela chega – apontei pro namorada do seu irmão – e diz bem alto: ‘ah, mas é com essa vadia que você ta me traindo?’ e pula em cima dela. Quando o segurança sair da porta das salas do cinema pra apartar a gente faz o garoto aqui pular a catraca e pronto.
Você aperto minha mãe enquanto ria se pendurou no meu ombro e sussurrou: “Esquece. Ele que se dane” e me puxou para comprar os ingressos sozinhos.
É uma das coisas que eu sempre gostei em você e aprendi com o tempo era esse seu botãozinho “que se foda” ligado o tempo todo. Eu inventei esse nome naquele mesmo dia, um pouco mais tarde, lembra?
Mas nós entramos na sala de cinema de mãos dadas. Escolhemos um lugar no canto, longe dos outros.
Nós rimos dos trailers e você gritou: “Por gentileza, desliguem seus pagers e celulares” quando o celular de um cara três fileiras à frente tocou.
O começo do filme era chato, típico filme de rapper americano com seu low-rider que pula.
Eu acariciava sua mão bem devagar e olhava seu rosto iluminado somente pela luz da tela. Seu sorriso leve no canto da boca caçoava do filme e seus olhos iam de lá pra cá na tela procurando algo para rir.
Foi quando você olhou pra mim e eu senti um solavanco na base do estômago.
O impulso foi mais forte que eu tentei te beijar sem nem pensar. Você virou o rosto e mexeu os lábios dizendo: “Meu irmão ta ali do lado.”
Eu disse do mesmo jeito, só mexendo os lábios: “Esquece. Ele que se dane” e você riu.
Seus olhos se voltaram pra tela enquanto os meus ainda estavam fixos em você. Sua mão ficou tensa por um instante e apertou o braço da cadeira.
Eu olhei pra tela e soltei a sua mão. Isso fez você olhar pra mim como se perguntasse “Por que você soltou?”
Eu levei minha mão ao seu queixo olhando nos seus olhos e consegui ver o momento em que eles se fecharam.
Num instante nossas bocas estavam coladas e eu senti um frio na barriga. Começou tímido e lento, mas em pouco tempo nossas línguas já se massageavam freneticamente. Eu sentia sua respiração se misturar com a minha e segurei sua mão outra vez.
Com a outra mão, você se apoiou no meu peito e me afastou devagar.
Eu vi seus olhos brilharem por um segundo fitando os meus antes de você desviar o olhar para a tela.
Eu levantei o braço móvel da cadeira que nos separava e você se deitou sobre o meu peito.
Ficamos assim por 15 minutos ou mais.
Ok, eu não sei o certo por que eu ficava olhando o filme pensando no que dizer. Eu simplesmente não sabia o que dizer, não sabia como você reagiria, não sabia o que estava pensando agora.
Você se virou pra mim depois de algum tempo e sussurrou: “Então, o que você achou?”
“Você tem gosto de refrigerante” – eu sussurrei de volta.
Você riu e segurou minha mão me fazendo te abraçar.
A gente ficou ali ainda mais 10 minutos depois que o filme terminou curtindo nosso primeiro beijo “à luz de telas”.

Novo Mundo

janeiro 11, 2010

Pensa comigo: por mais que eu estivesse ficando igual aos meus amigos que trocariam o futebol pelas garotas na sexta à noite eu nunca admitiria isso. Afinal, todas as garotas com quem eu tinha me envolvido até então tinham sido só números, contas, no máximo troféus.
A 8ª série tinha sido uma exceção á isso. Eu passei quase o ano todo apaixonado por uma garota com sardas que era da sala ao lado. Eu a olhava de longe e às vezes tinha a impressão de que a fazia rir, mas era só impressão. Até porque, por mais que eu falasse pelos cotovelos com todo mundo, durante o ano todo, pelas minhas contas, eu não cheguei a trocar duas frases com ela.
A minha sorte é que o 1º ano era diferente. A gente começou a estudar de manhã e isso foi uma benção. Claro, era insuportável saber que às 7 da manhã, todos os dias, durante os próximos três anos eu estaria na escola, mas dessa maneira eu poderia aproveitar as madrugadas pra algo útil e poderia dormir a tarde toda e foi isso que eu fiz durante os três anos.
A escola de manhã tinha coisas impressionantes se você soubesse onde procurar. Eu digo coisas impressionantes, mas não eram poucas. Você poderia encontrar desde celulares e relógios a preços baixíssimos (se eu dissesse “procedência duvidosa” seria muita bondade da minha parte, todo mundo sabia exatamente de onde vinham essas coisas.) até psicotrópicos e atestados médicos de todos os tipos.
As aulas por sua vez continuavam basicamente as mesmas e os professores também, mas isso não me preocupava muito. Eu era um bom aluno, mas nunca cheguei a ser um nerd. Sempre tive boas notas simplesmente pelo fato de na infância eu ter gastado meu tempo livre lendo e não soltando pipa, mas não sei necessariamente se isso valeu de alguma coisa.
Na verdade, eu era o melhor aluno daquela escola sem fazer a menor força para tal e isso era bom porque as pessoas sabiam o meu nome e me pediam ajuda que eu, obviamente, cobrava por elas depois (às vezes.).
Ao longo do tempo eu também aprendi que o violão e alguns truques de mágica ajudavam muito a chamar atenção no intervalo das aulas e aproveitei. As garotas ficavam em volta e era só escolher a musica certa pra virar um rock star instantâneo.
Os truques de mágica seguiam a mesma linha, mas funcionavam melhor individualmente.
Com isso fiz alguns amigos esquisitos que também gostavam de rock n’ roll.
Eu fiz algumas inimizades depois de uma malsucedida peça de teatro que deveria ser montada pra uma semana de artes. Eu nem me importei muito com isso porque eu acabei levando todos os méritos pela montagem bem sucedida que eu tinha dirigido, pelo texto impecável que eu tinha escrito, pelo figurino que eu tinha pensado e, claro, pela maquiagem e cenário que por acaso eu nem tinha posto a mão. Mas por um lado era legal ser odiado pelas vadias da sala porque dava crédito extra com as pessoas legais e era exatamente isso o que eu queria.
De um modo ou de outro a gente ainda tinha as opções de conversas sobre espiritismo ou anabolizantes no meio do pátio, ver as revistas playboy nos bancos ao lado da quadra, rodas com o violão no fundo frio e úmido do pátio ou rodear em volta da cantina olhando o movimento e cumprimentando o maior numero possível de pessoas. Com isso, as conversas sobre calcinhas e pílulas anticoncepcionais não fariam a menor falta.
No atual momento da nossa história, em setembro, eu já estava completamente adaptado à esse novo mundo e cheguei na escola no dia seguinte ao meu encontro no parque com um sorriso gigantesco que provocou alguns comentários dos meu amigos durante toda a primeira aula.
O dia era cansativo: Português, biologia e física antes do intervalo com artes e aula dupla de matemática depois dele.
Os resumos de biologia não estavam prontos como sempre e os 17 exercícios de física um amigo estava incumbido de fazê-los por mim em troca do resumo de história pro dia seguinte. Falando nisso, ele foi o único que não comentou nada sobre a minha felicidade pois estava aproveitando a aula de português com um professor substituto para fazê-los e estava num canto quase suando de tanto calcular.
O professor substituto parecia mais novo que nós. Seu corpo com 1,60 de altura entrou na sala carregando seus cabelos loiros longos e assustados olhos azuis escondidos por trás dos óculos com armação preta.
Ele resolveu não passar exercício algum e passou todo o tempo com os nerds colados nele. Claro, o assunto era a cotação do dólar quanto ao euro ou como era impressionante o Darth Vader ser pai do Luck Skywalker – Sendo que a segunda opção é a mais provável.
Eu felizmente passei todas as aulas completamente entretido nos meus próprios pensamentos e não nos do excêntrico professor de física. Ele não precisava ter corrigido o cara. Se quem disse “euréca” foi o Arquimedes e não o Isaac Newton tanto faz numa hora dessas, concorda?
Passei todas as aulas aquele dia pensando eu como eu gostaria de ter ligado pra ela logo que eu pisei em casa e não liguei. Gostaria de ter ligado logo de manhã quando acordei, mas não liguei e nem ligaria aquele dia.
Eu me mantive acordado na aula de artes mesmo com o cheiro da tinta insistindo em me lembrar do meu sono e isso me fez dormir durante toda a primeira aula de matemática e ser acordado na outra para uma prova surpresa.
Bom, pelo menos a prova surpresa me fez ir embora mais cedo sem precisar falar pra ninguém sobre o dia anterior.
Passei sozinho pela loja de carros, pelo supermercado, pela passarela por cima da avenida até chegar ao ponto de ônibus.
Não contei pra ninguém sobre a tarde anterior. Era muito perfeito e era só meu. Ninguém precisava saber e me fazer perguntas. Era só meu e dela.

Domingo.
8 da manhã e eu acordado.
8 da manhã? Eu acordado? Como é possível?
E essa linda manhã ensolarada, como vai?
Bom dia, linda manhã!
Camiseta preta lisa, sem desenhos ou frases. Lisa.
Calça jeans. Rasgada no joelho ou não?
Ah, rasgada.
All star. Cadarço branco ou preto? Branco, oras, o tênis já é preto.
A gente marcou as 10 e eu já estou pronto as 8?
Igualzinho os caras que eu critico. Eu sempre critico demais.
Eles escolhem uma garota e param de sair com os amigos. Será que eles não percebem que sempre faltaalguém no futebol na sexta à noite sempre por esse motivo?
E olha pra mim. Olhe para esse ser se vestindo em frente ao espelho. Igualzinho a todos eles.

– E daí? Dane-se. – eu digo olhando meus olhos no espelho.

Minha mãe está triste no café da manhã. O pai dela não está nada bem no hospital e ontem ela ficou quase a noite toda lá e eu conheço essa cara. Meu pai ficava do mesmo jeito quando o pai dele estava no hospital à beira da morte uns anos atrás. Ele forçava risos que ela não força, mas ficava do mesmo jeito.
E qual é o problema da morte? Todo mundo um dia morre e essa é a coisa mais normal do mundo.
Eu só tenho uma certeza: Eu vou morrer um dia e não pode ser hoje.
Olha eu supervalorizando de novo.

Entro no carro e lembro que tenho que abrir o portão pro meu pai me levar.
Abro, ele sai com o carro e eu fecho.

A gente não conversa muito no caminho. Meus pensamentos estão em outro lugar. Mais precisamente 6 km à frente.
Quer dizer, a gente não anda conversando muito ultimamente. A gente fala do “jogo de ontem” no jantar e pronto. Nada mais.
Ele me deixa em frente ao portão do parque e eu entro.
Ando um pouco e me sento no lugar onde a gente marcou.
O parque é bonito, grande e venta muito aqui dentro.
Grama por todos os lados, ciclovias e dois lagos.
Algumas crianças brincam com os patos enquanto suas respectivas mães gritam pra não encostarem neles.
O pai brinca de bola com o filho mais velho. Óculos escuros, cara amarrada, ele se irrita toda vez que o pai erra um chute. Se bem que é pedir demais que um velho visivelmente fora de forma acerte todos os chutes a essa distância.
10 minutos.
Um homem vende sorvetes num carrinho de empurrar. Me oferece e eu recuso com um sorriso e uma balançada de cabeça.
15 minutos.
Algumas crianças passam correndo e sorriem pra mim. Retribuo.
20 minutos.
– Como venta aqui, não? – Diz o vendedor de sorvetes passando de novo pelo meu lado.
– Pois é. – eu respondo.
25 minutos.
27 minutos.
Meia hora.
Sinto alguém se sentar na grama do meu lado. Olhos verdes, cabelos ondulados castanho-claro, camiseta branca lisa, calça jeans sem rasgos no joelho, All Star branco com cadarço preto. Um sorriso no rosto.
– Demorei pra me trocar, desculpa.
– Seria mais criativo se você tampasse meus olhos e dissesse “adivinha quem é!”, ia me convencer mais. – mentira.
Já consegui uma risada.
Aliás, nunca tinha conseguido tantas risadas de uma garota em toda minha vida.
A gente falou sobre tudo. Musica, cinema, teatro, futebol, sonhos, amor, Clarisse Lispector, Charles Bukowsky…
Agora eu já sei que ela sonhava com água toda noite até os 10 anos. Que ela prefere comédias românticas e ficção científica a suspense e musicais. Que prefere gatos a cães. Que não entende o hino nacional, mas gosta de Bon Jovi. Que ela torce pro time de futebol rival do que eu torce. E sei que é encantadora quando olha pro lago sorrindo.
Enquanto a gente anda pelo parque me sinto num filme clichê americano com sorvetes e hot-dogs e digo isso. Claro que eu me arrependo um segundo depois, mas digo.
– Quem sabe esse clichê não tem um final feliz?
– Pode ser, mas só se o roteiro for muito bom pra valer a pena.
Eu tento beijá-la.
Ela se esquiva.
– Preciso ir. – ela diz.
– Como assim? – eu digo.
– Almoçar em casa. – ela diz.
– Mas já passa das 4 da tarde. – eu digo.
– Tchau.
Ela consegue uma risada minha e sai correndo.
Eu fico aqui parado. Olhando os cabelos dela voando enquanto ela corre.

“That’s why I’m easy… I’m easy like Sunday morning…”

‘Cause I’m easy…

novembro 6, 2009

Uoooooooooooooom…
“You know it sounds funny but I just can’t stand the pain.”
Blablabla…
“That’s why I’m easy… I’m easy like Sunday morning.”
Blablabla…
“I wanna be free to know the things I do are right!”

Quando eu me dei conta todo mundo na rua se virava e olhava pra mim. Compreensível.
Principalmente na hora do solo com a minha guitarra imaginaria.
E eu ria sozinho andando até o ponto de ônibus que ficava depois de uma passarela por cima de uma avenida, que ficava depois de um supermercado, que ficava depois deuma loja de carros que ficava depois da escola.
Longe.
Eu ri sozinho no fundo da sala o tempo todo enquanto meu amigo contava suas aventuras sexuais no banco de trás do carro do pai dele.
Ri sozinho, por acaso, comentando o jogo de futebol da noite passada no meio da prova de matemática.
Comentei da letra da professora de biologia e falei sobre o jogo de futebol da noite passada com ela.
Deixei duas garotas mexerem no meu cabelo enquanto eu escrevia a redação pra aula de português pra elas. Eu que pedi pra escrever, eu estava inspirado, oras! Duas redações sobre a mesma coisa, com modos diferentes de escrita, perspectivas diferentes e as duas genais, convenhamos.
Falar sobre a exploração capitalista no oriente médio, ou seja lá o que fosse, era uma boa opção. Não pelo lado ruim da coisa, mas era um modo de ninguém falar comigo e eu curtir meu momento sozinho.
Se eu ligasse e ela não atendesse eu provavelmente desligaria o telefone. Claro, eu não me imagino falando com o irmão dela e pedindo pra falar com ela mas ela atendeu e reconheceu minha voz. Do dia do shopping, ela disse.
Conversamos durante uma hora e meia. Claro que eu perdi a hora pro curso, mas eu nem me importei. Na verdade foi ela quem disse tchau e desligou rápido logo depois de me dizer que sim, sairia comigo dali a dois dias. De manhã, num parque no centro da cidade.

“’Cause I’m easy… I’m easy like Sunday morning…”

Aaaah!

setembro 21, 2009

Consegui o número dela.
É, porra! O número de telefone dela!
O irmão dela é tão babaca que conseguir foi mais fácil do que eu achei que seria.
Eu tinha imaginado tantas histórias, tantas maneiras de fazer um assunto rodar, rodar e rodar até que eu tivesse a chance de falar sobre alguma coisa que me fizesse pedir o telefone e eu nem precisei de nada disso.
Pensando bem agora, bem nesse momento sentado e escrevendo eu penso que seria bem mais fácil falar com ela, ser um tanto menos infantil, mas esse era meu erro: Ser infantil demais e essa história é sobre isso, mas.. Ah, esquece, deixa pra lá.
Eu consegui o número e anotei num pedaço de papel com o nome dela escrito logo abaixo. Eu grifei muitas vezes o nome enquanto eu pensava no que dizer depois do alô.
Não pensei em nada.
Sabe, era como quando alguém te pede pra fazer algo que você não está nada afim de fazer ou que você simplesmente não gosta. As coisas não aparecem na sua cabeça e parece que seus pensamentos rodam em torno de si mesmos e caem no mesmo lugar que começaram: no zero.
Minhas mãos não se mexiam enuanto meus olhos estavam freneticamente se movendo entre o telefone e o papel, o papel e o telefone.
Minhas pernas se moveram e me fizeram levantar dali antes que eu pudesse pensar seriamente em fazer isso.
Peguei o papel e deixei dentro da minha mão e apertei.
Peguei minha mochila e saí.
Sentei no ponto de ônibus e esperei. Não o ônibus, mas alguma coisa que me fizesse ser mais do que eu podia ser.
Uma mulher senta do meu lado com uma criança no colo.
A criança carrega a bolsa da mãe como um brinquedo e sorri pra mim como se exibisse pra mim o maior troféu do mundo: “Olha, eu já sou adulta, já tenho até uma bolsa! OLHA!”
Eu forço um sorriso como retribuição enquanto percebo a mãe levantar-se deixando a criança sentada do meu lado enquanto vai até o lixo jogar alguns papéis. A criança ainda olha pra bolsa com excitação mas percebe que a mãe não está mais ali e olha pra mim.
“Não, não é a mamãe!”
E olha pros dois lados, gira a cabeça e começa a berrar:
“MAMÃE! MAMÃÃÃE! AHHHHH”
Três segundos de pânico total que pareceram uma eternidade até que a mãe chegasse e tomasse a garotinha em um abraço.
Cara, como eu não pensei nisso antes?
O que a criança, indefesa, fez quando não sabia o que fazer?
Ela gritou pelo o que ela queria.
Ela queria a mãe e gritou com todas as suas forças por ela.
Eu tinha que gritar também.
Levantei dali, o papel seguro na mão, apertado, os olhos na calçada, os passos firmes.
Respirei rápido, fundo.
Estiquei a mão e abri o portão, a porta.
Peguei o telefone, disquei o número…
Um toque. Meu coração pula, sinto um solavanco na garganta.
Dois toques. Meu folêgo sofre pra se manter, eu suspiro.
Três toques. Se ninguém atender agora eu deslig..
– Alô?

Pássaro

agosto 24, 2009

Que tipo de pássaro resolve cantar as 02:30 da manhã?
O canto do pássaro é tão bonito que eu paro, abro a janela e tento encontrá-lo no em meio aos galhos da arvore na frente de casa. Ele canta solitário nessa noite quente de setembro.
Mas agora ele canta pra mim, só pra mim. O canto dele parece entrar como uma valsa pela suave brisa que faz os galhos da árvore e os meus cabelos dançarem suavemente numa sincronia perfeita.
Os meus olhos procuram o passáro enquanto a minha cabeça procura uma maneira de vê-la de novo mas eu não encontro nenhuma das duas coisas.

Ir pra escola sempre me mata de tédio. Aulas chatas, gente fútil.
Bem lá no fundo, em meio a aula de química, eu durmo o sono da minha noite não dormida.
A professora grita me chamando e pergunta a resposta do exercicio que está escrito na lousa.
A professora não gosta muito de mim. Ela é uma mulher com já vários anos vividos, mais do que deveria é o que dizem. Sempre preocupada e desconfiada de tudo. Ela usa roupas que já saíram de moda a pelo menos duas décadas, mas não parece se importar muito. Agora seus olhos por trás dos óculos de armação escura e grossa me fuzilam esperando pela resposta errada.
Eu digo: “não sei” e volto a dormir ouvindo ao longe os resmungos da velha professora.

Quanto tempo mais isso vai durar? Eu vou ligar pra ela.

Blog de Ouro!

agosto 15, 2009

Super legal o pessoal do Trema Literatura indicar o 23a pro ‘Blog de Ouro’!

Obrigadãao mesmo!! ;D

blog_de_ouro_thumb[7]

http://www.tremaliteratura.com/2009/08/um-parenteses.html

Mas uma das regras do Blog de Ouro é que você deve passá-lo adiante, escolhendo os blogs que merecem esse selo.

Foi difícil, mas lá vai:

1 – http://www.vestindoletras.blogspot.com/ – Vestindo Letras, de Letícia Mendonça.

2 – http://baiucadobardo.blogspot.com/– Baiúca do Bardo, de Francisco Jamess

3 – http://escultordehistorias.blogspot.com/ – Escultor de Histórias, de Weslley Fontenele.

4 – http://gtorevolucaoteatral.blogspot.com/ – Revolução Teatral. Grupo de Teatro do Oprimido de Santo André. (Não é um blog literário, mas eu acho o trabalho deles muito muito muito legal, acho que merece.)

Enfim, é isso aí! Abraços, muchachos!