É quase inverno.

maio 13, 2009

É quase inverno. Escrevi um nome num pedaço de papel e deixei o papel cair pela janela do sétimo andar. Era como se eu estivesse caindo com ele e, de repente, voltasse ao meu corpo.
Eu ouvia a chuva enquanto o papel caía, mas não a via, eu via o papel e ouvia a musica que a chuva fazia ao bater no chão de concreto da calçada lá em baixo.
Um homem passou pela calçada, vindo do lado direito da janela. Pisou no papel sem perceber e deixou em pedaços meu momento.
Uma mãe passou com uma criança, logo atrás do homem. Impaciente a mãe puxava a criança pelo braço quase como a uma mala mas a criança por sua vez não se importava e continuava a brincar com as poças d’água e parou ao ver o papel. Falou algo para a mãe, que virou e deu-lhe um sorriso e pegou a criança no colo.
Uma mulher passou apressada e, sem notar, também pisou no papel ali em baixo e o nome já não estava ali. A tinha vermelha agora era só um borrão visto de longe.
Um carro passou e levantou um pouco d’água, água suficiente para levar meu papel embora pelo bueiro.

5 minutos e ninguém mais passou.

O primeiro homem viu o papel e o pisoteou de raiva. Como que depois de 23 anos de trabalho duro na mesma empresa o mandam embora, assim sem mais nem menos? “Corte de pessoal, é a crise” lhe disseram.
O motorista do carro que fez o papel sumir da minha frente sustenta a familia com o pouco que ganha trabalhando para “esses engravatados”, como a esposa custuma chamar. Ele não gosta, mas é o que ele tem, por enquanto. Seus filhos precisam dele e ele nunca os deixaria. Nunca.
A mulher que passou pelo papel tinha acabado de cruzar com um homem na rua, parecia triste, com raiva e ela ficou feliz por não ter visto seus olhos. Estava tão feliz! Era tão jovem e tinha conseguido realizar seu maior sonho. Todos os anos de dedicação aos estudos tinham dado certo e seus pais estariam orgulhosos agora. Estava, finalmente indo para seu primeiro dia no novo emprego. “Mas essa chuva que não passa. Ó, meus sapatos!”
O Notebook apitou uma vez. “Bateria Fraca”
“Agora não, por favor!” Pensou. “Nada pode dar mais errado hoje!”
O Notebook apitou a segunda vez.
“Eu tenho que acabar isso logo”.
O Notebook apitou a terceira vez.
Ele o desligou e ficou olhando a paisagem passar pela janela do carro.
A criança no colo da mãe sorriu para uma mulher apressada na rua e ela lhe retribuiu o sorriso. A criança disse um nome.
O nome do papel? Não sei.
Mas qual o sentido disso tudo? Nenhum. Absolutamente nenhum.
Mas eu, daqui de cima vejo todos passando e invento histórias pra cada um deles.
Eles vêm e vão. Nascem e morrem. Choram e Riem.
Eu, parado aqui, os vejo e invento algo mais interessante sobre eles e gosto de imaginar que pode ser verdade.

Fim.

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