Cartas.

maio 19, 2009

Pé esquerdo pra dentro do ônibus. 2,50 é um roubo! Eu penso, mas pago.
Meu lugar usual já está ocupado então sento-me no banco em frente à porta.
A viagem é longa, então puxo o livro da mochila. Está frio, então puxo também a blusa e visto-a. Abro o livro.
“Noite. Apaga-se a luz. Amanhã é sexta-feira. Vovó resona, remexe, resmunga. O menino grita no outro quarto pelo pai e pede o carrinho. Ri, inocente e neurótico […]”
Senta uma velha do meu lado. Cabelos crespos e mal cuidados, um vestido com flores amarelas horríveis e um perfume forte, doce e seco que me dá náuseas. Ela olha pra mim e me dá um sorriso amarelo. Eu me volto para o livro e ela parece estar lendo comigo. Sinto seus olhos irem e virem nas linhas da página 23 junto comigo.
“[…]geme com ele, a voz pastosa de sono. São onze horas. Aquela trocadora já deve estar com aquele motorista.
Fecho os olhos. Viro de lado. O Cobertor demora a esquentar. Minha vagina está molhando.”
A velha dá um suspiro e parece olhar pra mim com reprovação. Ela estava realmente lendo! Esses velhos conservadores não podem ouvir (ou ler, que seja!) algo como ‘vagina’ que se sentem ofendidos. Aquele olhar me fez sentir como seu tivesse acabado de subir no banco do ônibus e berrado: “MINHA VAGINA ESTÁ MOLHANDO!”
Fecho o livro e começo a olhar pra fora da janela. As raizes das árvores quebram a calçada com o tempo, e eu lembro de você caindo numa delas.
A gente estava andando num dia de chuva, você me fazia correr enquanto eu gritava pra você parar. Você olhou pra trás e eu lembro dos seus olhos verdes assustados no momento em que você percebeu que ia cair. Você ficou com a bunda toda molhada! hahaha
A gente foi até a sua casa andando. Ficava perto da escola e a gente tinha matado aula. Não que fosse certo, mas a gente achava divertido. Você torceu pra que seu irmão não estivesse em casa e ele não estava. O elevador ficou todo molhado depois que a gente saiu.
Você foi tomar banho e eu fiquei pela casa, olhando todos os cantos. Eu vi suas fotos de criança do lado do telefone e nossas cartas jogadas em cima da mesa.
Eu sinto falta delas, você ainda tem? Eu não menti em nenhuma, juro.
Fico com uma sensação estranha toda vez que eu lembro disso.
Estralo meu maxilar. 2, 3 vezes. Você odiava essa minha mania. Eu solto um riso bobo, silencioso.
Eu liguei pra você hoje de manhã. “Te acordei?”
Você me pareceu a mesma pessoa de sempre, só que um pouco indiferente agora que as cartas acabaram.
Fiquei de te ligar de novo amanhã, mas não vou. Eu só quis ouvir sua voz como despedida hoje.
Hoje eu escrevo um novo nome no papel e jogo pela janela do ônibus.

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