Aaaah!

setembro 21, 2009

Consegui o número dela.
É, porra! O número de telefone dela!
O irmão dela é tão babaca que conseguir foi mais fácil do que eu achei que seria.
Eu tinha imaginado tantas histórias, tantas maneiras de fazer um assunto rodar, rodar e rodar até que eu tivesse a chance de falar sobre alguma coisa que me fizesse pedir o telefone e eu nem precisei de nada disso.
Pensando bem agora, bem nesse momento sentado e escrevendo eu penso que seria bem mais fácil falar com ela, ser um tanto menos infantil, mas esse era meu erro: Ser infantil demais e essa história é sobre isso, mas.. Ah, esquece, deixa pra lá.
Eu consegui o número e anotei num pedaço de papel com o nome dela escrito logo abaixo. Eu grifei muitas vezes o nome enquanto eu pensava no que dizer depois do alô.
Não pensei em nada.
Sabe, era como quando alguém te pede pra fazer algo que você não está nada afim de fazer ou que você simplesmente não gosta. As coisas não aparecem na sua cabeça e parece que seus pensamentos rodam em torno de si mesmos e caem no mesmo lugar que começaram: no zero.
Minhas mãos não se mexiam enuanto meus olhos estavam freneticamente se movendo entre o telefone e o papel, o papel e o telefone.
Minhas pernas se moveram e me fizeram levantar dali antes que eu pudesse pensar seriamente em fazer isso.
Peguei o papel e deixei dentro da minha mão e apertei.
Peguei minha mochila e saí.
Sentei no ponto de ônibus e esperei. Não o ônibus, mas alguma coisa que me fizesse ser mais do que eu podia ser.
Uma mulher senta do meu lado com uma criança no colo.
A criança carrega a bolsa da mãe como um brinquedo e sorri pra mim como se exibisse pra mim o maior troféu do mundo: “Olha, eu já sou adulta, já tenho até uma bolsa! OLHA!”
Eu forço um sorriso como retribuição enquanto percebo a mãe levantar-se deixando a criança sentada do meu lado enquanto vai até o lixo jogar alguns papéis. A criança ainda olha pra bolsa com excitação mas percebe que a mãe não está mais ali e olha pra mim.
“Não, não é a mamãe!”
E olha pros dois lados, gira a cabeça e começa a berrar:
“MAMÃE! MAMÃÃÃE! AHHHHH”
Três segundos de pânico total que pareceram uma eternidade até que a mãe chegasse e tomasse a garotinha em um abraço.
Cara, como eu não pensei nisso antes?
O que a criança, indefesa, fez quando não sabia o que fazer?
Ela gritou pelo o que ela queria.
Ela queria a mãe e gritou com todas as suas forças por ela.
Eu tinha que gritar também.
Levantei dali, o papel seguro na mão, apertado, os olhos na calçada, os passos firmes.
Respirei rápido, fundo.
Estiquei a mão e abri o portão, a porta.
Peguei o telefone, disquei o número…
Um toque. Meu coração pula, sinto um solavanco na garganta.
Dois toques. Meu folêgo sofre pra se manter, eu suspiro.
Três toques. Se ninguém atender agora eu deslig..
– Alô?

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Uma resposta to “Aaaah!”

  1. […] Como sempre, quando eu to sem o que escrever, pego alguma coisa antiga do 23a, hoje por exemplo foi o “Aaaah!” […]

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