Novo Mundo

janeiro 11, 2010

Pensa comigo: por mais que eu estivesse ficando igual aos meus amigos que trocariam o futebol pelas garotas na sexta à noite eu nunca admitiria isso. Afinal, todas as garotas com quem eu tinha me envolvido até então tinham sido só números, contas, no máximo troféus.
A 8ª série tinha sido uma exceção á isso. Eu passei quase o ano todo apaixonado por uma garota com sardas que era da sala ao lado. Eu a olhava de longe e às vezes tinha a impressão de que a fazia rir, mas era só impressão. Até porque, por mais que eu falasse pelos cotovelos com todo mundo, durante o ano todo, pelas minhas contas, eu não cheguei a trocar duas frases com ela.
A minha sorte é que o 1º ano era diferente. A gente começou a estudar de manhã e isso foi uma benção. Claro, era insuportável saber que às 7 da manhã, todos os dias, durante os próximos três anos eu estaria na escola, mas dessa maneira eu poderia aproveitar as madrugadas pra algo útil e poderia dormir a tarde toda e foi isso que eu fiz durante os três anos.
A escola de manhã tinha coisas impressionantes se você soubesse onde procurar. Eu digo coisas impressionantes, mas não eram poucas. Você poderia encontrar desde celulares e relógios a preços baixíssimos (se eu dissesse “procedência duvidosa” seria muita bondade da minha parte, todo mundo sabia exatamente de onde vinham essas coisas.) até psicotrópicos e atestados médicos de todos os tipos.
As aulas por sua vez continuavam basicamente as mesmas e os professores também, mas isso não me preocupava muito. Eu era um bom aluno, mas nunca cheguei a ser um nerd. Sempre tive boas notas simplesmente pelo fato de na infância eu ter gastado meu tempo livre lendo e não soltando pipa, mas não sei necessariamente se isso valeu de alguma coisa.
Na verdade, eu era o melhor aluno daquela escola sem fazer a menor força para tal e isso era bom porque as pessoas sabiam o meu nome e me pediam ajuda que eu, obviamente, cobrava por elas depois (às vezes.).
Ao longo do tempo eu também aprendi que o violão e alguns truques de mágica ajudavam muito a chamar atenção no intervalo das aulas e aproveitei. As garotas ficavam em volta e era só escolher a musica certa pra virar um rock star instantâneo.
Os truques de mágica seguiam a mesma linha, mas funcionavam melhor individualmente.
Com isso fiz alguns amigos esquisitos que também gostavam de rock n’ roll.
Eu fiz algumas inimizades depois de uma malsucedida peça de teatro que deveria ser montada pra uma semana de artes. Eu nem me importei muito com isso porque eu acabei levando todos os méritos pela montagem bem sucedida que eu tinha dirigido, pelo texto impecável que eu tinha escrito, pelo figurino que eu tinha pensado e, claro, pela maquiagem e cenário que por acaso eu nem tinha posto a mão. Mas por um lado era legal ser odiado pelas vadias da sala porque dava crédito extra com as pessoas legais e era exatamente isso o que eu queria.
De um modo ou de outro a gente ainda tinha as opções de conversas sobre espiritismo ou anabolizantes no meio do pátio, ver as revistas playboy nos bancos ao lado da quadra, rodas com o violão no fundo frio e úmido do pátio ou rodear em volta da cantina olhando o movimento e cumprimentando o maior numero possível de pessoas. Com isso, as conversas sobre calcinhas e pílulas anticoncepcionais não fariam a menor falta.
No atual momento da nossa história, em setembro, eu já estava completamente adaptado à esse novo mundo e cheguei na escola no dia seguinte ao meu encontro no parque com um sorriso gigantesco que provocou alguns comentários dos meu amigos durante toda a primeira aula.
O dia era cansativo: Português, biologia e física antes do intervalo com artes e aula dupla de matemática depois dele.
Os resumos de biologia não estavam prontos como sempre e os 17 exercícios de física um amigo estava incumbido de fazê-los por mim em troca do resumo de história pro dia seguinte. Falando nisso, ele foi o único que não comentou nada sobre a minha felicidade pois estava aproveitando a aula de português com um professor substituto para fazê-los e estava num canto quase suando de tanto calcular.
O professor substituto parecia mais novo que nós. Seu corpo com 1,60 de altura entrou na sala carregando seus cabelos loiros longos e assustados olhos azuis escondidos por trás dos óculos com armação preta.
Ele resolveu não passar exercício algum e passou todo o tempo com os nerds colados nele. Claro, o assunto era a cotação do dólar quanto ao euro ou como era impressionante o Darth Vader ser pai do Luck Skywalker – Sendo que a segunda opção é a mais provável.
Eu felizmente passei todas as aulas completamente entretido nos meus próprios pensamentos e não nos do excêntrico professor de física. Ele não precisava ter corrigido o cara. Se quem disse “euréca” foi o Arquimedes e não o Isaac Newton tanto faz numa hora dessas, concorda?
Passei todas as aulas aquele dia pensando eu como eu gostaria de ter ligado pra ela logo que eu pisei em casa e não liguei. Gostaria de ter ligado logo de manhã quando acordei, mas não liguei e nem ligaria aquele dia.
Eu me mantive acordado na aula de artes mesmo com o cheiro da tinta insistindo em me lembrar do meu sono e isso me fez dormir durante toda a primeira aula de matemática e ser acordado na outra para uma prova surpresa.
Bom, pelo menos a prova surpresa me fez ir embora mais cedo sem precisar falar pra ninguém sobre o dia anterior.
Passei sozinho pela loja de carros, pelo supermercado, pela passarela por cima da avenida até chegar ao ponto de ônibus.
Não contei pra ninguém sobre a tarde anterior. Era muito perfeito e era só meu. Ninguém precisava saber e me fazer perguntas. Era só meu e dela.

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