À luz de telas.

fevereiro 10, 2010

Sabe, eu me peguei rindo sozinho agora em frente à TV.
Assistir TV de madrugada pode ser muito engraçado. Por exemplo, agora é um filme que você iria adorar: sobre um monge chinês que vai atrás de um pêssego que lhe dá juventude eterna.
Bom, o primeiro filme que nós assistimos juntos foi muito bom. Admito, eu assisti depois com uns amigos pra poder entender o contexto.
Eu fiquei te esperando mais de meia hora na fonte em frente das salas de cinema. Aquelas fontes com azulejo azul, com água bem fraquinha saindo pelos cantos.
Te vi chegando mas não quis que você me visse e fiquei te olhando de longe por uns 5 minutos. Impaciente, você andava de um lado pra outro olhando em volta. Os cabelos soltos sobre a jaqueta preta, a calça sobre o salto alto.
Suas amigas chegaram e isso quis dizer que eu perdi a chance de fazer uma surpresa. Um cara se aproximou e eu apertei minha mão dentro do bolso. Ele te pegou pela cintura pra te dizer oi e te beijou no rosto. Você se manteve estática olhando para o nada como você sempre fez. Eu me movi e fui até você e por trás cobri seus olhos com as minhas mãos.

– Adivinha quem é?
– Eu vou me surpreender se eu errar?
– Depende, se você estiver esperando que seja o Johnny Depp só de cueca vai se decepcionar.
– Não vou não, me contento só com você mesmo.

Você se virou, me olhou nos olhos, sorriu e segurou a minha mão.
Sua amiga, uma garota extremamente branca com os cabelos extremamente pretos sugeriu um dos filmes em cartaz fazendo com que o resto das pessoas ali se rebelasse contra a decisão mas isso não valeu de nada por que a gente queria ver aquele filme então estava decidido.
Só tinha um problema, tinha um garoto ali que não tinha mais que 12 anos e a classificação etária do filme era de 16 anos.
Eu disse:
– Tenho uma idéia: “Você – e apontei pra sua amiga branquela – fica parada com ele – e apontei pro seu irmão – bem ali na frente da entrada e fingem conversar, daí ela chega – apontei pro namorada do seu irmão – e diz bem alto: ‘ah, mas é com essa vadia que você ta me traindo?’ e pula em cima dela. Quando o segurança sair da porta das salas do cinema pra apartar a gente faz o garoto aqui pular a catraca e pronto.
Você aperto minha mãe enquanto ria se pendurou no meu ombro e sussurrou: “Esquece. Ele que se dane” e me puxou para comprar os ingressos sozinhos.
É uma das coisas que eu sempre gostei em você e aprendi com o tempo era esse seu botãozinho “que se foda” ligado o tempo todo. Eu inventei esse nome naquele mesmo dia, um pouco mais tarde, lembra?
Mas nós entramos na sala de cinema de mãos dadas. Escolhemos um lugar no canto, longe dos outros.
Nós rimos dos trailers e você gritou: “Por gentileza, desliguem seus pagers e celulares” quando o celular de um cara três fileiras à frente tocou.
O começo do filme era chato, típico filme de rapper americano com seu low-rider que pula.
Eu acariciava sua mão bem devagar e olhava seu rosto iluminado somente pela luz da tela. Seu sorriso leve no canto da boca caçoava do filme e seus olhos iam de lá pra cá na tela procurando algo para rir.
Foi quando você olhou pra mim e eu senti um solavanco na base do estômago.
O impulso foi mais forte que eu tentei te beijar sem nem pensar. Você virou o rosto e mexeu os lábios dizendo: “Meu irmão ta ali do lado.”
Eu disse do mesmo jeito, só mexendo os lábios: “Esquece. Ele que se dane” e você riu.
Seus olhos se voltaram pra tela enquanto os meus ainda estavam fixos em você. Sua mão ficou tensa por um instante e apertou o braço da cadeira.
Eu olhei pra tela e soltei a sua mão. Isso fez você olhar pra mim como se perguntasse “Por que você soltou?”
Eu levei minha mão ao seu queixo olhando nos seus olhos e consegui ver o momento em que eles se fecharam.
Num instante nossas bocas estavam coladas e eu senti um frio na barriga. Começou tímido e lento, mas em pouco tempo nossas línguas já se massageavam freneticamente. Eu sentia sua respiração se misturar com a minha e segurei sua mão outra vez.
Com a outra mão, você se apoiou no meu peito e me afastou devagar.
Eu vi seus olhos brilharem por um segundo fitando os meus antes de você desviar o olhar para a tela.
Eu levantei o braço móvel da cadeira que nos separava e você se deitou sobre o meu peito.
Ficamos assim por 15 minutos ou mais.
Ok, eu não sei o certo por que eu ficava olhando o filme pensando no que dizer. Eu simplesmente não sabia o que dizer, não sabia como você reagiria, não sabia o que estava pensando agora.
Você se virou pra mim depois de algum tempo e sussurrou: “Então, o que você achou?”
“Você tem gosto de refrigerante” – eu sussurrei de volta.
Você riu e segurou minha mão me fazendo te abraçar.
A gente ficou ali ainda mais 10 minutos depois que o filme terminou curtindo nosso primeiro beijo “à luz de telas”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: