Ensaios

abril 1, 2010

Durante todo aquele mês, que a gente quase não se viu, eu percebi o quanto aquela sexta a noite no cinema tinha virado meu mundo de cabeça pra baixo.
E quando eu digo “virou meu mundo de cabeça pra baixo” eu digo com toda a serenidade do mundo.
Minhas notas melhoraram, meus dias ficaram mais curtos, e isso era bom, eles ficaram mais curtos por que minha insônia diminuiu muito e pra mim sempre foi uma vitória conseguir dormir uma noite inteira.
Se, por um lado, não te ver durante aquele tempo foi torturante, isso só me fortaleceu.
Eu pensava em você o tempo todo e às vezes sentia o cheiro do seu perfume doce e seco antes de dormir.
Falando nisso, eu estava tentando lembrar o nome desse seu perfume um tempo atrás e cheguei à conclusão de que não lembraria, então fiz questão de me esquecer do assunto.
Novembro era sempre mês de revisão de matérias e este começou com muitos deveres e trabalhos pra nós dois, mesmo que nós estudássemos em escolas completamente diferentes.
Enquanto eu escrevia à mão meus resumos de história, você entregava por email, como se fossem suas, as teses do que algum nerd da turma do seu irmão tinha feito pra ele dois anos atrás.
Aliás, foi nessa primeira semana de novembro que eu a idéia da minha banda voltou à minha cabeça.
Eu já tinha escrito muito durante o tempo que eu deixei essa idéia de lado e isso me excitava agora que as idéias caiam do céu.
Conversei com um carinha de outra sala sobre isso. Ele era um garoto um pouco acima do peso, tinha cabelos rebeldes e encaracolados e também levava o violão pra escola de vez em quando. Ele aceitou a idéia logo de primeira, mas nós concordamos que precisaríamos de um baterista antes de tudo.
Mesmo com esse empecilho nós começamos a trocar letras e arranjos de musicas que tínhamos e percebemos que as musicas iam se completando aos poucos.
Nós nos juntamos algumas vezes durante aquele mês pra ver se algumas daquelas musicas saiam do papel, mas não tivemos muito sucesso.
Eu não era inexperiente quanto a bandas de rock, tanto que já tinha passado por duas delas (que claro, acabaram sem deixar vestígios depois de pouco tempo), mas as musicas não saiam do jeito que a gente queria.
A gente passava tardes tentando fazer as musicas terem a nossa cara, mas elas sempre ficavam iguais as musicas do álbum “Appetite for Destruction” do Guns n’ Roses.
Pensando bem, foi bom a gente ter percebido isso logo de cara e ter trocado as guitarras por violões nos “ensaios”.
“Ensaios” entre aspas porque a gente ainda não tinha musica nenhuma, então não era bem um ensaio e a gente acabava não fazendo nada durante horas, e isso é bem o que hoje chamaríamos de “ócio criativo nem tão criativo assim”, só que acima de tudo isso o sentimento de “vamos ficar ricos com isso” estava firme nas nossas cabeças e nos fazia continuar a não fazer nada.

***

O dia estava quente e algumas nuvens começavam a se formar negras no céu na hora em que eu saí de casa no sábado a tarde.
Começou a chover durante o trajeto e eu me preocupei com a minha roupa que com certeza ficaria completamente molhada.
Nos encontramos na frente do parque debaixo de uma chuva muito forte e quente e a gente decidiu esperar ela passar pra entrar no parque mas ela não passou e a gente decidiu entrar do mesmo jeito.
Foi o nosso melhor encontro até então. Em baixo de chuva, completamente molhados e entregues às nossas próprias risadas inocentes.
Ali a gente percebeu que aquilo iria durar pra sempre, que iria marcar fundo na pele. Foi isso ou eu passei esse tempo todo enganado? Você sentiu também, tenho certeza.
Era a primavera acabando e dando lugar ao verão.

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