Como hippies no parque.

junho 22, 2010

A idéia era fazer um som no gramado do parque. Todo mundo, num domingo ensolarado, sentado no gramado com violões e cigarros parecendo hippies.
A sensação era sempre a mesma, como se eu me deparasse com algo novo a todo momento, o que não era mentira, mas era só uma sensação que eu só consigo perceber agora.
Sair com os amigos dela, que começavam ali a ser meus amigos também, tinha um clima muito rock n’ roll. Mais até do que a que tinha com os meus próprios amigos. Eles eram mais velhos e usavam algumas coisas que só um dos meus amigos mais próximos já tinha experimentado.
Ela nunca gostou disso e até brigava com os outros quando eles levavam maconha, por exemplo.
A garota branquela de franja tirou os cigarros da bolsa e distribuiu e eu peguei um também.
Eu já tinha fumado algumas vezes depois de roubar cigarros do meu pai no meio da madrugada.
Um amigo do irmão dela me entregou o violão e me pediu pra tocar alguma coisa. Toquei umas musicas de “hippies no parque” e foi fácil animar pessoas já um tanto bêbadas de vodka quente com coca cola.
Ela acendeu um cigarro e dividiu as tragadas comigo enquanto a gente conversava com todo mundo.
O irmão dela era um cara alto, de cabelos castanhos como os dela, fazia academia todos os dias e pouco dormia em casa. Era do tipo falsa geração saúde, sabe? “Cuido do meu corpo, mas maltrato meu pulmão e meu fígado por prazer.”
Ele tinha levado a nova namorada dele pro fundo do parque e lá eles tinham ficaram por meia hora ou um pouco mais.

– Vocês parecem um bando de hippies sentados assim aí! – Ele disse.
– Você quer ir pra casa hoje? – A garota disse.
– Vou sim. Aliás, vamos todo mundo agora? – Disse, fazendo um gesto para que nós o acompanhássemos.

Concordamos, levantamos e fomos.
No caminho nós conversamos sério e eu recebi alguns conselhos: Nada de piadas com palavrões e nada de palavrões soltos nas frases. Não falar alto, nem gaguejar quando falarem alto. Não falar nada sobre futebol ou sobre sexo. E, em hipótese alguma, contar sobre nós.

– Pra quem eu contaria? – Perguntei.
– Só finge que você é educado, ok? – e riu.

E, como sempre, ela não respondeu o que eu perguntei e continuamos andando.
Eu lembrava bem onde ela morava e ainda sabia o caminho, mas mesmo assim fomos atrás de todo mundo. Era uma rua grande e não era reta. O prédio ficava no meio da curva e ficava bem perto do parque e, por acaso, da escola onde eu estudava.
Passamos pelo portão e pelo mesmo porteiro de um tempo atrás quando a gente esteve ali trazendo um pacote bêbado a ser despejado dentro do apartamento. Já parecia fazer muito tempo, parecia que tinha sido há séculos, que tinha sido outra pessoa que tinha ido até lá um dia.
Entramos no elevador. 10 pessoas dentro de um elevador, algumas cheirando forte a cigarro e outras substâncias quaisquer.
Enquanto o elevador lentamente ia subindo de andar em andar, as borboletas voavam no meu estômago e faziam tal festa lá dentro que eu comecei a quase me sentir mau. Toda aquela ansiedade não tinha justificativa, era só eu me manter invisível durante todo o tempo que ficássemos lá, mas quem disse que eu conseguia ficar invisível?
Saímos do elevador e eu coloquei o pé pra fora quase como quem vai pra forca. Olhei o corredor com paredes brancas e um vaso no canto, embaixo da janela. Algumas portas, que eu não consegui saber exatamente quantas eram e uma delas com o numero 23 colado.
Uma mulher abriu a porta por dentro e apareceu na porta com um sorriso no rosto. Ela não era tão alta, mas era magra e tinha cabelos castanhos e lisos. Uma postura calma e um abraço igualmente sereno.
Perguntou meu nome quando eu entrei e eu perguntei de volta e descobri que essa era a mãe dela.
Claro, eu não conseguiria ficar invisível e comentei na frente dela:

– Nossa, sua irmã é tão bonita quanto você.
– Como você é ridículo. – E riu – Não é minha irmã, é minha mãe.
– Não fala assim com o garoto. Ele é muito gentil. Obrigado.
– E muito engraçadinho também! – O irmão dela gritou.

A sala, à direita da porta, tinha uma televisão grande sobre um hack grande com bebidas, alguns livros e CDs. Na parece tinha grudado um quadro com o time do pai dela, aquele rival do meu. O sofá em frente era branco e tinha algumas almofadas brancas sobre ele.
Logo atrás do sofá, depois da janela, ficava a mesa de jantar. Era redonda, de vidro, pequena e tinha 6 cadeiras em volta. Tinham alguns livros e uma xícara de café ali em cima.
Além da mesa eu vi a porta para a cozinha e do outro lado um corredor que levava pros quartos.
Me mandaram sentar e ela logo se sentou do meu lado. Segurou minha mão e eu senti que ela estava fria.
Perguntei se ela estava bem, ela olhou pra mim e fez que sim com a cabeça. Não acreditei, mas continuei segurando a mão dela e ela, ainda segurando minha mão, me fez ajoelhar em frente ao hack e ver alguns CDs que ela tinha comprado recentemente. Algumas bandas que estavam na moda, a trilha sonora de Dirty Dancin’ e uma coletânea de jazz. Eu disse, claro, que só o disco de jazz tinha valido o dinheiro gasto e ela voltou pro sofá. Fiquei ali olhando pra ela e levantei. Passei por ela e toquei seu queixo com a ponta dos dedos. Fui até a mesa onde todos estavam conversando. Então, de repente, e não poderia ter sido mais assustador, ouvi uma voz grossa vinda do corredor dos quartos. Essa voz foi aumentando e irrompeu pela sala seguida pelo corpo grande de um homem com barbas grisalhas e poucos cabelos.
Era o pai dela e eu percebi a hora que ela se virou pra ver a minha reação e a curiosidade tinha lá seus motivos. Talvez ela tenha percebido que pela primeira eu quis ser invisível, MS não adiantou. Ele olhou no rosto de todos, que continuavam conversando, e apontou pra mim e pra uma garota:

– Eu não conheço vocês dois.

Percebi que a garota tinha ficado vermelha de vergonha e tomei a frente:

– Pois é, a gente é relativamente novo na “gangue” – E fiz um gesto de aspas com os dedos.
– Bom saber. Mas qual é exatamente o objetivo de vocês na “gangue”? – e repetiu meu gesto
– Bom, a gente não sabe direito. A gente ainda é meio estagiário deles ainda, não é? – e dei uma trombada na garota.

E o grande urso calvo e grisalho se desmontou e riu junto com todo mundo.
E ela continuava sentada em frente da TV e eu esperei sair de foco na conversa pra sentar do lado dela. Sentei e, quase que instantaneamente, ela deitou a cabeça no meu ombro.

– Tem certeza que ta bem? Pode ser peste bubônica ou coisa parecida, cuidado.
– Não é nada, só vontade e ficar quieta assim. – E se ajeitou no meu ombro.

Estiquei o braço até a mesinha de telefone, peguei uma caneta vermelha e o caderno de anotações. Escrevi: “Você está fica tão linda mesmo assim com peste bubônica, sabia?”. Arranquei o papel do caderno e dobrei antes de colocar na mão dela.
Ela desdobrou, leu e sorriu. Era o que eu precisava. Anunciei que estava tarde e que eu precisava ir embora.
Me despedi de todos e ela me levou até a portaria.

– Você se saiu bem, parabéns.
– Imagina, são seus olhos verdes vendo as coisas distorcidas. Eu quase me borrei lá dentro quando seu pai entrou falando alto.
– Ele não é nada. Quero ver a hora que você conhecer meu irmão.
– Eu já conheço seu irmão há tempos, sabia? Ta chapada?
– Não, tonto. Meu irmão mais novo. Ele tem 3 anos e ta na casa da minha avó hoje e é o demoniozinho mais lindo do mundo. Você vai gostar dele.
– Mal posso esperar. Mas criança só é bom quando não solta fluidos corporais o tempo todo. Ele não é daqueles catarrentos, né?
– Claro que não! Ele é lindo.
– Então é muita sorte a minha dele ser seu irmão, senão eu não ia ter a menor chance.
– Ah, não ia mesmo. – E me beijou.

***

Cheguei em casa e dormi no sofá mesmo sem nem tirar a calça jeans.
Dormi a noite toda.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: