julho 15, 2009

Sabe aquela fumacinha que sai da boca quando ta frio? Eu coloquei os pés pra fora de casa e ela sai da minha boca.
Puxei o zíper da blusa até o pescoço e abri o portão.
Queria que você pudesse me ver agora. Queria poder te ver agora, sabe?
Toda vez que faz frio parece que você está mais perto. Mais e mais.
Toda vez que faz frio parece que você está mais longe. Mais e mais.

Fumaça.

junho 14, 2009

‘Cry baby cry’, dos Beatles, grita suas notas pelos meus fones de ouvido.

Eu abro a porta e saio, como quem já sabe pra onde ir. Piso forte no chão, olhando pros meus tênis e dos tênis pra rua, da rua pros tênis. Os tênis indo e vindo, indo e vindo. A rua indo e vindo, indo e vindo.
O vento gelado corta o meu rosto e faz meus cabelos pularem em cima dos meus olhos.
Eu não tiro as mãos dos bolsos e me encolho pra continuar andando contra o vento frio.

‘All I Want’, Joni Mitchell, agora grita nos meus ouvidos enquanto eu gostaria de estar gritando nos dela agora. Nessa hora.

Bato no bolso de tras da calça e acho o antigo maço de cigarros que eu deveria ter jogado fora quando eu disse que tinha parado. Acendo um e sinto que é errado, mas continuo.
Cinza como num bom filme, eu penso.
A névoa suave se mistura com a fumaça da primeira tragada e o vento leva as três juntas pra longe de mim. Ela, a névoa e a fumaça.
Jogo o cigarro inteiro no chão e sigo andando.

Mais uma vez. Dia frio.

maio 20, 2009

Hoje eu percebi que existem sorrisos mais bonitos que o seu.
Eu acordo e tomo o habitual café sem açucar.
Assisto um pouco de TV e escrevo um pouco. Pego o Violão mas deixo em cima da cama depois de 3 ou 4 acordes, tô cansado disso. Hoje não.
‘O que eu vou almoçar hoje?’ Abro o armário e procuro algo pra preparar. Abro a geladeira e percebo que o refrigerante acabou.
Saio de casa pra comprar, afinal, a padaria é logo ali na esquina.
Vou pelo caminho mais longo pra pensar um pouco, respirar mais fundo (fumaça de gasolina e óleo Diesel é sempre bom pros pensamentos). O caminho que eu vou é cheio de eucaplitos que, nos dias frios, sempre soltam pequenas gotas d’água e eu me divirto tendo que correr delas.
No meio do caminho eu cruzo com um homem magro, lá pelos seus 50 anos, os cabelos, que já foram castanhos agora grisalhos, bigodes igualmente. Ele parece muito feliz com alguma coisa, de longe se percebe! Ele impregnava o espaço ao seu redor com o seu sorriso largo e soltou um pra mim também.
Cara, esse sorriso impregnou em mim de tal maneira que mudou todo o humor do meu dia, que até ali estava cinza depois de ter te ligado.
Chego em casa e enquanto preparo a massa do macarrão que a minha ‘nonna’ me ensinou (lembra aquele eu fiz na sua casa quele dia? igual.) eu resolvo ouvir aquele cd dos menudos. Eu sei que é ridículo imaginar alguém preparando ‘la pasta’ enquanto ouve ‘não se reprima’, principalmente com eles tentando cantar em português.
Passo a tarde ouvindo isso e esqueço um pouco de tudo. Escrevo um pouco até perceber que é hora de sair.
Saio de casa, com o humor melhor do que nunca.
“ai! que frio, cara!”
Pé esquerdo pra dentro do ônibus. 2,50 é um roubo! Eu penso, mais pago.

Cartas.

maio 19, 2009

Pé esquerdo pra dentro do ônibus. 2,50 é um roubo! Eu penso, mas pago.
Meu lugar usual já está ocupado então sento-me no banco em frente à porta.
A viagem é longa, então puxo o livro da mochila. Está frio, então puxo também a blusa e visto-a. Abro o livro.
“Noite. Apaga-se a luz. Amanhã é sexta-feira. Vovó resona, remexe, resmunga. O menino grita no outro quarto pelo pai e pede o carrinho. Ri, inocente e neurótico […]”
Senta uma velha do meu lado. Cabelos crespos e mal cuidados, um vestido com flores amarelas horríveis e um perfume forte, doce e seco que me dá náuseas. Ela olha pra mim e me dá um sorriso amarelo. Eu me volto para o livro e ela parece estar lendo comigo. Sinto seus olhos irem e virem nas linhas da página 23 junto comigo.
“[…]geme com ele, a voz pastosa de sono. São onze horas. Aquela trocadora já deve estar com aquele motorista.
Fecho os olhos. Viro de lado. O Cobertor demora a esquentar. Minha vagina está molhando.”
A velha dá um suspiro e parece olhar pra mim com reprovação. Ela estava realmente lendo! Esses velhos conservadores não podem ouvir (ou ler, que seja!) algo como ‘vagina’ que se sentem ofendidos. Aquele olhar me fez sentir como seu tivesse acabado de subir no banco do ônibus e berrado: “MINHA VAGINA ESTÁ MOLHANDO!”
Fecho o livro e começo a olhar pra fora da janela. As raizes das árvores quebram a calçada com o tempo, e eu lembro de você caindo numa delas.
A gente estava andando num dia de chuva, você me fazia correr enquanto eu gritava pra você parar. Você olhou pra trás e eu lembro dos seus olhos verdes assustados no momento em que você percebeu que ia cair. Você ficou com a bunda toda molhada! hahaha
A gente foi até a sua casa andando. Ficava perto da escola e a gente tinha matado aula. Não que fosse certo, mas a gente achava divertido. Você torceu pra que seu irmão não estivesse em casa e ele não estava. O elevador ficou todo molhado depois que a gente saiu.
Você foi tomar banho e eu fiquei pela casa, olhando todos os cantos. Eu vi suas fotos de criança do lado do telefone e nossas cartas jogadas em cima da mesa.
Eu sinto falta delas, você ainda tem? Eu não menti em nenhuma, juro.
Fico com uma sensação estranha toda vez que eu lembro disso.
Estralo meu maxilar. 2, 3 vezes. Você odiava essa minha mania. Eu solto um riso bobo, silencioso.
Eu liguei pra você hoje de manhã. “Te acordei?”
Você me pareceu a mesma pessoa de sempre, só que um pouco indiferente agora que as cartas acabaram.
Fiquei de te ligar de novo amanhã, mas não vou. Eu só quis ouvir sua voz como despedida hoje.
Hoje eu escrevo um novo nome no papel e jogo pela janela do ônibus.

Parte 1 – Inverno.

maio 14, 2009

Se, no final, isso não der em nada, pelo menos a estória dá uma boa musica. ;D