Elevator

junho 2, 2009

A gente parou na frente do prédio. Eu não quis entrar mas você me puxou. Se alguém estivesse olhando o circuito interno do prédio naquela hora e visse o elevador ficaria horrorizado.
Você entrou e eu fui atrás, fechei a porta e você, se despindo entrou no banheiro. Porta aberta me chamando e eu não fui.
Eu continuo assim. eu não entendo essas mensagens subliminares que as garotas passam o tempo todo. É dificil, eu não leio pensamentos e ponto. Mas essa da porta foi o cúmulo.
Eu andei pela casa toda olhando suas fotos, seus discos (aquelas bandas ridículas, meu santo urso puff!), seus filmes, suas coisas da escola, todas molhadas, jogadas agora no sofá branco.
Na mesa de centro nossas cartas. Eram cartas curtas, simples e cheias de frases de efeito. Eu sentei e li uma delas. Horrível! As vezes eu não sei o que me passava pela cabeça, será que tantas frases ao vento davam certo?
Eu vou até a janela com um dos papéis na mão e uma caneta vermelha (a sua mania de só escrever de vermelho era o que eu mais gostava em você. Eu sei, é horrível dizer isso, mas era). Eu escrevi um outro nome nesse papel. O som do chuveiro crescia nos meus ouvidos. Não era o chuveiro, era a chuva. Não, não.. A chuva E o chuveiro. Não sei. O papel saiu da minha mão como se puxado por uma mão invisível.
Dali de cima eu via todo mundo passar, então eu imaginava uma história pra cada um que passava correndo pela rua.
Era quase inverno e a tarde chuvosa vinha com um vento frio. Eu fechei a janela, voltei pra dentro e vi você…

Pára de pensaaar! Po, cara.. Eu perdi, de novo, o ponto pra descer! E tá frio pra caralho hoje…

É quase inverno.

maio 13, 2009

É quase inverno. Escrevi um nome num pedaço de papel e deixei o papel cair pela janela do sétimo andar. Era como se eu estivesse caindo com ele e, de repente, voltasse ao meu corpo.
Eu ouvia a chuva enquanto o papel caía, mas não a via, eu via o papel e ouvia a musica que a chuva fazia ao bater no chão de concreto da calçada lá em baixo.
Um homem passou pela calçada, vindo do lado direito da janela. Pisou no papel sem perceber e deixou em pedaços meu momento.
Uma mãe passou com uma criança, logo atrás do homem. Impaciente a mãe puxava a criança pelo braço quase como a uma mala mas a criança por sua vez não se importava e continuava a brincar com as poças d’água e parou ao ver o papel. Falou algo para a mãe, que virou e deu-lhe um sorriso e pegou a criança no colo.
Uma mulher passou apressada e, sem notar, também pisou no papel ali em baixo e o nome já não estava ali. A tinha vermelha agora era só um borrão visto de longe.
Um carro passou e levantou um pouco d’água, água suficiente para levar meu papel embora pelo bueiro.

5 minutos e ninguém mais passou.

O primeiro homem viu o papel e o pisoteou de raiva. Como que depois de 23 anos de trabalho duro na mesma empresa o mandam embora, assim sem mais nem menos? “Corte de pessoal, é a crise” lhe disseram.
O motorista do carro que fez o papel sumir da minha frente sustenta a familia com o pouco que ganha trabalhando para “esses engravatados”, como a esposa custuma chamar. Ele não gosta, mas é o que ele tem, por enquanto. Seus filhos precisam dele e ele nunca os deixaria. Nunca.
A mulher que passou pelo papel tinha acabado de cruzar com um homem na rua, parecia triste, com raiva e ela ficou feliz por não ter visto seus olhos. Estava tão feliz! Era tão jovem e tinha conseguido realizar seu maior sonho. Todos os anos de dedicação aos estudos tinham dado certo e seus pais estariam orgulhosos agora. Estava, finalmente indo para seu primeiro dia no novo emprego. “Mas essa chuva que não passa. Ó, meus sapatos!”
O Notebook apitou uma vez. “Bateria Fraca”
“Agora não, por favor!” Pensou. “Nada pode dar mais errado hoje!”
O Notebook apitou a segunda vez.
“Eu tenho que acabar isso logo”.
O Notebook apitou a terceira vez.
Ele o desligou e ficou olhando a paisagem passar pela janela do carro.
A criança no colo da mãe sorriu para uma mulher apressada na rua e ela lhe retribuiu o sorriso. A criança disse um nome.
O nome do papel? Não sei.
Mas qual o sentido disso tudo? Nenhum. Absolutamente nenhum.
Mas eu, daqui de cima vejo todos passando e invento histórias pra cada um deles.
Eles vêm e vão. Nascem e morrem. Choram e Riem.
Eu, parado aqui, os vejo e invento algo mais interessante sobre eles e gosto de imaginar que pode ser verdade.

Fim.