Domingo.
8 da manhã e eu acordado.
8 da manhã? Eu acordado? Como é possível?
E essa linda manhã ensolarada, como vai?
Bom dia, linda manhã!
Camiseta preta lisa, sem desenhos ou frases. Lisa.
Calça jeans. Rasgada no joelho ou não?
Ah, rasgada.
All star. Cadarço branco ou preto? Branco, oras, o tênis já é preto.
A gente marcou as 10 e eu já estou pronto as 8?
Igualzinho os caras que eu critico. Eu sempre critico demais.
Eles escolhem uma garota e param de sair com os amigos. Será que eles não percebem que sempre faltaalguém no futebol na sexta à noite sempre por esse motivo?
E olha pra mim. Olhe para esse ser se vestindo em frente ao espelho. Igualzinho a todos eles.

– E daí? Dane-se. – eu digo olhando meus olhos no espelho.

Minha mãe está triste no café da manhã. O pai dela não está nada bem no hospital e ontem ela ficou quase a noite toda lá e eu conheço essa cara. Meu pai ficava do mesmo jeito quando o pai dele estava no hospital à beira da morte uns anos atrás. Ele forçava risos que ela não força, mas ficava do mesmo jeito.
E qual é o problema da morte? Todo mundo um dia morre e essa é a coisa mais normal do mundo.
Eu só tenho uma certeza: Eu vou morrer um dia e não pode ser hoje.
Olha eu supervalorizando de novo.

Entro no carro e lembro que tenho que abrir o portão pro meu pai me levar.
Abro, ele sai com o carro e eu fecho.

A gente não conversa muito no caminho. Meus pensamentos estão em outro lugar. Mais precisamente 6 km à frente.
Quer dizer, a gente não anda conversando muito ultimamente. A gente fala do “jogo de ontem” no jantar e pronto. Nada mais.
Ele me deixa em frente ao portão do parque e eu entro.
Ando um pouco e me sento no lugar onde a gente marcou.
O parque é bonito, grande e venta muito aqui dentro.
Grama por todos os lados, ciclovias e dois lagos.
Algumas crianças brincam com os patos enquanto suas respectivas mães gritam pra não encostarem neles.
O pai brinca de bola com o filho mais velho. Óculos escuros, cara amarrada, ele se irrita toda vez que o pai erra um chute. Se bem que é pedir demais que um velho visivelmente fora de forma acerte todos os chutes a essa distância.
10 minutos.
Um homem vende sorvetes num carrinho de empurrar. Me oferece e eu recuso com um sorriso e uma balançada de cabeça.
15 minutos.
Algumas crianças passam correndo e sorriem pra mim. Retribuo.
20 minutos.
– Como venta aqui, não? – Diz o vendedor de sorvetes passando de novo pelo meu lado.
– Pois é. – eu respondo.
25 minutos.
27 minutos.
Meia hora.
Sinto alguém se sentar na grama do meu lado. Olhos verdes, cabelos ondulados castanho-claro, camiseta branca lisa, calça jeans sem rasgos no joelho, All Star branco com cadarço preto. Um sorriso no rosto.
– Demorei pra me trocar, desculpa.
– Seria mais criativo se você tampasse meus olhos e dissesse “adivinha quem é!”, ia me convencer mais. – mentira.
Já consegui uma risada.
Aliás, nunca tinha conseguido tantas risadas de uma garota em toda minha vida.
A gente falou sobre tudo. Musica, cinema, teatro, futebol, sonhos, amor, Clarisse Lispector, Charles Bukowsky…
Agora eu já sei que ela sonhava com água toda noite até os 10 anos. Que ela prefere comédias românticas e ficção científica a suspense e musicais. Que prefere gatos a cães. Que não entende o hino nacional, mas gosta de Bon Jovi. Que ela torce pro time de futebol rival do que eu torce. E sei que é encantadora quando olha pro lago sorrindo.
Enquanto a gente anda pelo parque me sinto num filme clichê americano com sorvetes e hot-dogs e digo isso. Claro que eu me arrependo um segundo depois, mas digo.
– Quem sabe esse clichê não tem um final feliz?
– Pode ser, mas só se o roteiro for muito bom pra valer a pena.
Eu tento beijá-la.
Ela se esquiva.
– Preciso ir. – ela diz.
– Como assim? – eu digo.
– Almoçar em casa. – ela diz.
– Mas já passa das 4 da tarde. – eu digo.
– Tchau.
Ela consegue uma risada minha e sai correndo.
Eu fico aqui parado. Olhando os cabelos dela voando enquanto ela corre.

“That’s why I’m easy… I’m easy like Sunday morning…”

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Pássaro

agosto 24, 2009

Que tipo de pássaro resolve cantar as 02:30 da manhã?
O canto do pássaro é tão bonito que eu paro, abro a janela e tento encontrá-lo no em meio aos galhos da arvore na frente de casa. Ele canta solitário nessa noite quente de setembro.
Mas agora ele canta pra mim, só pra mim. O canto dele parece entrar como uma valsa pela suave brisa que faz os galhos da árvore e os meus cabelos dançarem suavemente numa sincronia perfeita.
Os meus olhos procuram o passáro enquanto a minha cabeça procura uma maneira de vê-la de novo mas eu não encontro nenhuma das duas coisas.

Ir pra escola sempre me mata de tédio. Aulas chatas, gente fútil.
Bem lá no fundo, em meio a aula de química, eu durmo o sono da minha noite não dormida.
A professora grita me chamando e pergunta a resposta do exercicio que está escrito na lousa.
A professora não gosta muito de mim. Ela é uma mulher com já vários anos vividos, mais do que deveria é o que dizem. Sempre preocupada e desconfiada de tudo. Ela usa roupas que já saíram de moda a pelo menos duas décadas, mas não parece se importar muito. Agora seus olhos por trás dos óculos de armação escura e grossa me fuzilam esperando pela resposta errada.
Eu digo: “não sei” e volto a dormir ouvindo ao longe os resmungos da velha professora.

Quanto tempo mais isso vai durar? Eu vou ligar pra ela.

Bom, por mais que aqueles olhos verdes não saíssem da minha cabeça, a idéia de encontrá-los de novo já era algo distante.
Duas semanas já tinham passado e sair com os amigos parecia uma boa idéia.
Eles não eram bem meus amigos. Não daqueles que você sai toda semana, conta tudo e tem a liberdade de um falar da mãe do outro de brincadeira. Eram aqueles amigos que te chamam pra sair duas vezes por ano ou te encontram na rua e dizem: “Eai, tudo bem? Quanto tempo, né?” Mas eu realmente não me importo com isso e fui.
Um barzinho esfumaçado de cigarro e cheiro de cerveja velha derramada no chão sempre foi o tipo de lugar que me atraía então tinha tudo pra ser legal. Sem graça mas legal, sabe como é?
O lugar parecia aqueles Pubs ingleses que a gente vê em filmes. Cheio de caras com a barba mal feita tomando cerveja naquelas garrafas verde-escuro e ouvindo Joe Cocker.
Perfeito.
Perfeito até esse meu querido distante amigo ficar completamente bêbado e passar mau.
A gente levou o coitado pra casa dormindo um sono regados de sonhos pervertidos. Ele falava coisas que me fizeram rir alto.
O prédio onde ele morava ficava a alguns quilômetros da minha casa, num bairro mais rico que o meu.
Apertei a campainha e uma voz me perguntou o que eu desejava asperamente. Eu devo ter acordado o porteiro.
Expliquei a história e ouvi alguns resmungos do outro lado do interfone “De novo, vai to…”
Ouvi o estralo do portão abrindo e entrei. Passei pela portaria e um senhor de barbas brancas e um forte sotaque do interior nos disse que nós o levaríamos até o apartamento dele.
Aceitamos. Até porquê, até aquela hora, tudo era engraçado.
Subimos de elevador e tocamos a campainha do apartamento.
Alguns ruídos vindos lá de dentro denunciaram que alguém lá dentro já sabia exatamente o que estava acontecendo.
A porta abriu expondo uma garota de meias e cabelo um pouco despenteado.
E olhos verdes. Era ela.
Nosso olhar se encontrou por um instante que pareceu uma hora.
Eu soltei um ‘Oi’ tímido. Ela retribuiu olhando pro irmão sorridentemente bêbado e o puxou pra dentro.
O ‘obrigada’ dela foi rápido. A porta se fechou.
Como é possível?
Entrei no carro e pulei pro banco de trás e abri o vidro pro vento poder bater no meu rosto.
Como é possível?

apartamento 23a

julho 25, 2009

tlic.
tlic.
tlictlictlictlictlictlic.

toc toc.

a porta se abre.
– A campainha tá quebrada, sabia?
– Sabia.

Um beijo corta a conversa e faz eu calar a minha boca.
Eu tento começar a despí-la enquanto a faço se deitar no sofá.

– Espera um pouco.
– Mais?
– É. Mais um pouco.

Eu paro. Não adianta.
As férias já acabaram a algum tempo e é dificil a gente se ver num sábado assim. Eu não vou estragar tudo. Mas a gente vai fazer o que agora? Ver ‘Charlie and the Chocolate Factory’ de novo?

Tssiii.

Abro a garrafa de Coca Cola e sirvo 2 copos enquanto ela liga o aparelho de DVD e escolhe um filme.
Coloco os dois copos sobre a mesa de centro, em frente a tv.

Tuc.

Esse silêncio é constrangedor.

– Desculpa.
– Desencana.

Ela aperta o Play.
Meu braço se move por cima dos ombros dela. Lá vamos nós de novo.

Inteiro

julho 8, 2009

Eu não quero que você me ame
não assim
Eu não quero que você me chame
não assim

Como quem queima a ponta de um cigarro aceso
escondido
Ou um copo de absinto
assim, de uma vez, inteiro.

Pega fogo;
Meus olhos brilham num tom tão mágico
Seus olhos tão perto, longe
e um sorriso no canto da boca;
Zombas de mim

Sua voz de criança
sussura besteiras
Nu, seu corpo de mulher
capaz de realizá-las;
Zombas de mim

Zombas de mim
Como quem queima a ponta de um cigarro aceso
ou uma lata de refrigerante
Assim, lentamente, devagar.

Assim, como quem sente a ponta de um cigarro aceso no braço
capaz de queimar um instante
e no outro sumir
assim, lentamente, inteiro.

Como que sua língua
vai e vem na minha
e afasta;
seus olhos claros nos meus escuros
assim, de uma vez, devagar.

julho 1, 2009

. E sustentar artistas vagabundos, como diz a sociedade, não é digno de um bom servidor dos bons modos!