Bom, por mais que aqueles olhos verdes não saíssem da minha cabeça, a idéia de encontrá-los de novo já era algo distante.
Duas semanas já tinham passado e sair com os amigos parecia uma boa idéia.
Eles não eram bem meus amigos. Não daqueles que você sai toda semana, conta tudo e tem a liberdade de um falar da mãe do outro de brincadeira. Eram aqueles amigos que te chamam pra sair duas vezes por ano ou te encontram na rua e dizem: “Eai, tudo bem? Quanto tempo, né?” Mas eu realmente não me importo com isso e fui.
Um barzinho esfumaçado de cigarro e cheiro de cerveja velha derramada no chão sempre foi o tipo de lugar que me atraía então tinha tudo pra ser legal. Sem graça mas legal, sabe como é?
O lugar parecia aqueles Pubs ingleses que a gente vê em filmes. Cheio de caras com a barba mal feita tomando cerveja naquelas garrafas verde-escuro e ouvindo Joe Cocker.
Perfeito.
Perfeito até esse meu querido distante amigo ficar completamente bêbado e passar mau.
A gente levou o coitado pra casa dormindo um sono regados de sonhos pervertidos. Ele falava coisas que me fizeram rir alto.
O prédio onde ele morava ficava a alguns quilômetros da minha casa, num bairro mais rico que o meu.
Apertei a campainha e uma voz me perguntou o que eu desejava asperamente. Eu devo ter acordado o porteiro.
Expliquei a história e ouvi alguns resmungos do outro lado do interfone “De novo, vai to…”
Ouvi o estralo do portão abrindo e entrei. Passei pela portaria e um senhor de barbas brancas e um forte sotaque do interior nos disse que nós o levaríamos até o apartamento dele.
Aceitamos. Até porquê, até aquela hora, tudo era engraçado.
Subimos de elevador e tocamos a campainha do apartamento.
Alguns ruídos vindos lá de dentro denunciaram que alguém lá dentro já sabia exatamente o que estava acontecendo.
A porta abriu expondo uma garota de meias e cabelo um pouco despenteado.
E olhos verdes. Era ela.
Nosso olhar se encontrou por um instante que pareceu uma hora.
Eu soltei um ‘Oi’ tímido. Ela retribuiu olhando pro irmão sorridentemente bêbado e o puxou pra dentro.
O ‘obrigada’ dela foi rápido. A porta se fechou.
Como é possível?
Entrei no carro e pulei pro banco de trás e abri o vidro pro vento poder bater no meu rosto.
Como é possível?

Anúncios

Olhos

agosto 3, 2009

O som da televisão não me deixava dormir. Pensando bem, não era a televisão, eram meus pensamentos o que não me deixavam dormir. Estava no sofá deitado de bruços, as mãos sobre a nuca, os olhos abertos, mas sem enxergar absolutamente nada.

Ela quase não falou enquanto todos conversavam.
Os dedos dela iam de lá pra cá sobre a mesa de mármore e pareciam nem tocá-la tal qual era a suavidade do seu toque.
O shopping todo estava super agitado ao redor dela e ela parecia estar completamente desligada daquilo tudo e isso me encantava.
De repente os olhos dela encontraram os meus, que insistentemente fugiam dali.
Eu saí dali com aquila cena ainda rodando dentro da minha cabeça.

Não consegui dormir.
8:37am e eu ainda não tinha dormido.

Parte 2 – Primavera.

julho 30, 2009

Um barco está seguro no porto. Mas os barcos não são feitos para isso. [John A. Shedd]

apartamento 23a

julho 25, 2009

tlic.
tlic.
tlictlictlictlictlictlic.

toc toc.

a porta se abre.
– A campainha tá quebrada, sabia?
– Sabia.

Um beijo corta a conversa e faz eu calar a minha boca.
Eu tento começar a despí-la enquanto a faço se deitar no sofá.

– Espera um pouco.
– Mais?
– É. Mais um pouco.

Eu paro. Não adianta.
As férias já acabaram a algum tempo e é dificil a gente se ver num sábado assim. Eu não vou estragar tudo. Mas a gente vai fazer o que agora? Ver ‘Charlie and the Chocolate Factory’ de novo?

Tssiii.

Abro a garrafa de Coca Cola e sirvo 2 copos enquanto ela liga o aparelho de DVD e escolhe um filme.
Coloco os dois copos sobre a mesa de centro, em frente a tv.

Tuc.

Esse silêncio é constrangedor.

– Desculpa.
– Desencana.

Ela aperta o Play.
Meu braço se move por cima dos ombros dela. Lá vamos nós de novo.

Bom, me disseram que a história está ficando cinza. Muito frio, chuva, pensamentos profundos e lembranças estranhas.

Pois é. É assim mesmo que tem que ser. E pra ficar mais cinza eu recomendo um disco muito bom: Se chama “Song to a Seagull [1968]”, da Joni Mitchell.

Eu, pessoalmente prefiro o ‘Blue’ e o ‘Hejira’, mas o ‘Song to a Seagull’ é mais cinza do que esses dois anteriores. Nem melhor, nem pior. Mais cinza e, se eu não me engano, é o primeiro disco dela.

http://rapidshare.com/files/191482198/1968-_Song_To_A_Seagull.rar

Sensacional. Recomendo.

e boa leitura.. 😀
haha

julho 15, 2009

Sabe aquela fumacinha que sai da boca quando ta frio? Eu coloquei os pés pra fora de casa e ela sai da minha boca.
Puxei o zíper da blusa até o pescoço e abri o portão.
Queria que você pudesse me ver agora. Queria poder te ver agora, sabe?
Toda vez que faz frio parece que você está mais perto. Mais e mais.
Toda vez que faz frio parece que você está mais longe. Mais e mais.

Inteiro

julho 8, 2009

Eu não quero que você me ame
não assim
Eu não quero que você me chame
não assim

Como quem queima a ponta de um cigarro aceso
escondido
Ou um copo de absinto
assim, de uma vez, inteiro.

Pega fogo;
Meus olhos brilham num tom tão mágico
Seus olhos tão perto, longe
e um sorriso no canto da boca;
Zombas de mim

Sua voz de criança
sussura besteiras
Nu, seu corpo de mulher
capaz de realizá-las;
Zombas de mim

Zombas de mim
Como quem queima a ponta de um cigarro aceso
ou uma lata de refrigerante
Assim, lentamente, devagar.

Assim, como quem sente a ponta de um cigarro aceso no braço
capaz de queimar um instante
e no outro sumir
assim, lentamente, inteiro.

Como que sua língua
vai e vem na minha
e afasta;
seus olhos claros nos meus escuros
assim, de uma vez, devagar.

julho 1, 2009

. E sustentar artistas vagabundos, como diz a sociedade, não é digno de um bom servidor dos bons modos!

Fumaça.

junho 14, 2009

‘Cry baby cry’, dos Beatles, grita suas notas pelos meus fones de ouvido.

Eu abro a porta e saio, como quem já sabe pra onde ir. Piso forte no chão, olhando pros meus tênis e dos tênis pra rua, da rua pros tênis. Os tênis indo e vindo, indo e vindo. A rua indo e vindo, indo e vindo.
O vento gelado corta o meu rosto e faz meus cabelos pularem em cima dos meus olhos.
Eu não tiro as mãos dos bolsos e me encolho pra continuar andando contra o vento frio.

‘All I Want’, Joni Mitchell, agora grita nos meus ouvidos enquanto eu gostaria de estar gritando nos dela agora. Nessa hora.

Bato no bolso de tras da calça e acho o antigo maço de cigarros que eu deveria ter jogado fora quando eu disse que tinha parado. Acendo um e sinto que é errado, mas continuo.
Cinza como num bom filme, eu penso.
A névoa suave se mistura com a fumaça da primeira tragada e o vento leva as três juntas pra longe de mim. Ela, a névoa e a fumaça.
Jogo o cigarro inteiro no chão e sigo andando.

Elevator

junho 2, 2009

A gente parou na frente do prédio. Eu não quis entrar mas você me puxou. Se alguém estivesse olhando o circuito interno do prédio naquela hora e visse o elevador ficaria horrorizado.
Você entrou e eu fui atrás, fechei a porta e você, se despindo entrou no banheiro. Porta aberta me chamando e eu não fui.
Eu continuo assim. eu não entendo essas mensagens subliminares que as garotas passam o tempo todo. É dificil, eu não leio pensamentos e ponto. Mas essa da porta foi o cúmulo.
Eu andei pela casa toda olhando suas fotos, seus discos (aquelas bandas ridículas, meu santo urso puff!), seus filmes, suas coisas da escola, todas molhadas, jogadas agora no sofá branco.
Na mesa de centro nossas cartas. Eram cartas curtas, simples e cheias de frases de efeito. Eu sentei e li uma delas. Horrível! As vezes eu não sei o que me passava pela cabeça, será que tantas frases ao vento davam certo?
Eu vou até a janela com um dos papéis na mão e uma caneta vermelha (a sua mania de só escrever de vermelho era o que eu mais gostava em você. Eu sei, é horrível dizer isso, mas era). Eu escrevi um outro nome nesse papel. O som do chuveiro crescia nos meus ouvidos. Não era o chuveiro, era a chuva. Não, não.. A chuva E o chuveiro. Não sei. O papel saiu da minha mão como se puxado por uma mão invisível.
Dali de cima eu via todo mundo passar, então eu imaginava uma história pra cada um que passava correndo pela rua.
Era quase inverno e a tarde chuvosa vinha com um vento frio. Eu fechei a janela, voltei pra dentro e vi você…

Pára de pensaaar! Po, cara.. Eu perdi, de novo, o ponto pra descer! E tá frio pra caralho hoje…